Geral 24/09/2007 13:03
Bienal - Um Balanço Pessoal
Acabou ontem o evento, e acabou também essa minha maratona pessoal. O último debate a que assisti foi o dedicado às personalidades e aos cronistas do Rio, com João Carlos Rodrigues, Joaquim Ferreira dos Santos, Scarlet Moon e Zuenir Ventura, um bate-papo delicioso em que se falou de assuntos que iam do carnaval de rua de hoje (rolou até uma quase-polêmica, com João Carlos dizendo que bloco que acaba às dez da noite pra todo mundo ir pra casa ver televisão é de criança e Zuenir defendendo o carnaval atual) à mulher de branco da praia de Ipanema (pra quem não sabe, uma ex-mulher do compositor Marcos Valle, que embarcou numa viagem de ácido nos anos 70 e nunca retornou dela). Antes disso, teve ainda a presença de Cecily von Ziegesar, que parece uma das personagens dela depois de trocar de corpo com a mãe, como naquele filme "Sexta-Feira Muito Louca". Platéia cheia de pequenas gossip girls, que se emperequetaram todas para ver a mentora falar. Debate bem cheio e bem conduzido, mas que durou relativamente pouco. Talvez os livros já digam tudo, não é?
A programação cultural terminou cedo ontem e Guto foi pra casa dar uma descansada e refletir sobre o que tinha visto nesses 11 dias de caminhadas por mundos verdes, azuis e alaranjados onde, a cada hora, se falava de um assunto diferente. Depois de deglutir muita informação e pizza de calabresa em fatias, eis o que chamou mais a atenção.
- O Café Literário, de maneira geral, se destacou como espaço charmoso, com papos de altíssimo nível. É aquele em que mais dá vontade de entrar quando se está passando por ali, de bobeira, nem que seja para descansar um pouco os pés entre uma compra e outra. Ali, vi discussões sobre literatura das Arábias, literatura policial, tipos do Rio, "causos" de Bussunda, o universo das novelas, realismo mágico, almanaques e até mesmo filé ao molho pardo que enriqueceram meus conhecimentos. Por ali passaram Gilberto Braga, Luis Fernando Veríssimo, Daniel Galera, Martha Medeiros, Marcelo Rubens Paiva, David Toscana, Ana Maria Bahiana, João Ubaldo Ribeiro, Sérgio Cabral, Jorge Mautner, Bruna Surfistinha (ops, Raquel Pacheco, Bodyboarder), Tony Bellotto e a turma do Casseta & Planeta. E outros, claro. E, se eu não consegui ver todos esses falarem, é porque tinha muito mais coisa acontecendo nos universos paralelos ao redor.
- As homenagens a Ariano Suassuna e Gabriel García Márquez. Uma mais celebratória, com grupo teatral juvenil mixando O Romance da Pedra do Reino com O Auto da Compadecida e trazendo para o presente a obra do autor, um notório sorumbático cujo coração ficou amolecido com o tributo. A outra, mais reflexiva, com platéia menor e mais atenta às lembranças de dois amigos distantes dos olhos, mas próximos do coração de Gabo, e tão bons contadores de histórias quanto: Eric Nepomuceno e Ruy Guerra. E com direito às palavras do homenageado, extraídas diretamente do livro que mudou a sua vida e a de muitos de nós, Cem Anos de Solidão, numa leitura bonita de Cássia Kiss.
- O pocket-show acústico dos Paralamas do Sucesso-menos-um (melhoras aí do pós-operatório da apendicite, João Barone!), um momento em que a literatura cedeu seu lugar à música, com lucro para todos (afinal, havia um livro sendo promovido).
- Bolinhos, croquetes e cerveja dando energia a discussões de bom nível no Botequim Filosófico, um espaço novo que corria o risco de ficar escondido por estar instalado em mezanino, mas que chegou até mesmo a hiperlotar (Eduardo Suplicy deixou gente em pé até na escada) e que promoveu a informalidade em conversas que só tiveram a ganhar com isso (a mesa sobre a violência na literatura latino-americana, com os ultra-simpáticos Daniel Alarcón e Santiago Roncagliolo, foi uma delas). E onde até bate-boca saiu. Papo de mesa de bar, sabe como é, :-).
- As discussões sobre os rumos dos países de Lula e de Bush, que dominaram vários espaços. Fernando Gabeira pediu a derrubada de Renan Calheiros num momento, Ali Kamel defendeu a de Saddam Hussein noutro. Em todas as mesas em que o assunto fosse mais quente, os nomes dos dois líderes mais discutidos do momento acabavam sendo citados.
- A abertura do debate para os pontos de contato entre a literatura e outras formas de arte e de comunicação, como as bem-sucedidas discussões sobre livros e internet e livros e cinema, que, infelizmente, ocorreram quase ao mesmo tempo.
- A proximidade entre público e platéia na Arena Jovem, onde não havia formalidade que não fosse quebrada. As meninas do Grelo Falante não foram entrevistadas: preferiram entrevistar a platéia. Heloísa Perissé e Cláudia Rodrigues foram abordadas por pessoas que as estavam vendo pela primeira vez como se fossem conhecidas de longa data, na maior intimidade. A platéia discordou de Tico Santa Cruz quanto à maioridade penal sem medo, mas sem sair do papo civilizado também. Jovem sabe debater, sim. Ao menos alguns.
- Markus Zusak, o rei do primeiro fim de semana, que pôs gente sentada no chão do auditório para seu one-man-show, que deve ter aumentado ainda mais as vendas de "A Menina Que Roubava Livros". E as lindinhas vestidas como a Morte ajudaram a compor o cenário, claro.
Foi exaustivo. Foi uma pauleira. E foi bom pra caramba.
Em 2009, tem mais. Por ora, Guto vai descansar, que ele merece. :-)
Abraços a todos. Quem foi, sabe que eu não tou exagerando. Quem não foi, perdeu. Que não perca em 2009!
Enviar para
um amigo
Escrever
comentário
Visualizar
comentários(
4 )
Geral 23/09/2007 13:02
O último dia
Está terminando. Hoje, o dia que muitos de vocês esperavam (é hoje, às 15h, que Cecily von Ziegesar, autora dos livros da série Gossip Girl, estará no Riocentro). Hoje, o dia que outros tantos lamentam, porque, no que ele terminar, só em 2009.
Aproveitemos, então, para falar um pouco de ontem:
Ontem, quase ao mesmo tempo, o Botequim Filosófico apresentou um debate sobre a presença marcante da violência na literatura latino-americana, com a presença dos brasileiros Ricardo Lísias e Tailon Ruppenthal e dos peruanos Daniel Alarcón e Santiago Roncagliolo, e o Café Literário apresentou um bate-papo sobre a arte de escrever novelas, com Gilberto Braga e Sílvio de Abreu. Os tamanhos dos dois espaços são diferentes, mas ambos estavam lotados.
As novelas podem atingir muito mais público do que os livros, mas isso nem faz tanta diferença: o tema dos dois debates não deixava de ser o mesmo, ou seja, a razão de certos traços da nossa cultura se manifestarem com tanta força em nossas manifestações culturais. É só que, enquanto os escritores falaram mais sobre a violência mesmo, os novelistas passaram por vários assuntos que se refletem em seus textos, como homossexualismo, racismo etc.
"A novela só promove com força uma idéia se essa idéia já estiver na sociedade", foi o que Gilberto observou, já perto do fim do debate. "Se eu for promover uma maluquice, não acontece nada."
Da mesma forma, no Botequim, os escritores deram a entender que a violência está em seus textos porque, de uma forma ou de outra, está na sociedade, e é legitimada e tolerada por ela. Santiago Roncagliolo, que, "há sete ou oito anos", segundo ele, trabalhava com direitos humanos no Peru, disse ter conversado com muitos assassinos e percebido que eles, sempre, têm - e explicam - as suas razões.
"Você pergunta a eles 'por que você matou não sei quantas pessoas', eles respondem. Eles sempre têm as suas razões. Eles se acham boas pessoas, e no entanto são capazes de coisas terríveis. Fiquei impressionado com essa ambigüidade moral", expôs o autor de "Abril Vermelho" (Alfaguara).
Da mesma forma, o brasileiro Ricardo Lísias, cujo livro mais recente é "Duas Praças" (Ed. Globo), ressaltou o que chamou de "massacre histórico, herança da ditadura" que acontece no Brasil.
"Brasília é a cidade mais violenta do país", disse ele, para fazer valer a colocação. "Não é verdadeira essa colocação burguesa de que o país vive em guerra civil. A violência no Rio, uma cidade em que o equivalente à população do Peru vive com menos de um dólar por dia, é bem menor do que eu esperaria que fosse. Tudo depende da classe social a que se pertence. Dependendo de qual for, pode ser pior até do que o Iraque."
Talvez por isso as classes baixas precisem viver o glamour das novelas, então. E Gilberto Braga frisou que, se suas novelas não tiverem glamour, o público fica frustrado. Mas, nesse entorno, os autores vão tentando refletir as cobranças da sociedade e fazer novas cobranças eles mesmos.
"Uma pesquisa recente sobre aceitação do homossexualismo pelas famílias deu um índice positivo de 25% a mais do que a pesquisa anterior, feita uns anos antes. Eu atribuo isso, em parte, ao fato de as novelas estarem discutindo o assunto", disse Sílvio de Abreu, que deu destaque ao tema em "A Próxima Vítima", com o casal Sandrinho e Jefferson.
Enviar para
um amigo
Escrever
comentário
Visualizar
comentários(
2 )
Fórum de Debates 22/09/2007 18:22
Livros, filmes e computadores - Parte 2
Já o bate-papo sobre cinema e literatura foi a propósito do lançamento de "Os Maiores Filmes Brasileiros em Bilheteria e Crítica", um livro escrito a seis mãos pelo cineasta Cacá Diegues e os críticos Luiz Carlos Merten, do Estadão, e Rodrigo Fonseca, do Globo. O período abordado no livro, que é uma coleção de ensaios (ou deveria dizer um "compêndio", só pra falar difícil? :-)) é o da chamada Retomada, o cinema brasileiro mais recente, de meados dos anos 90 para cá. Duas listas formam a base do livro. Uma é objetiva, com as dez maiores bilheterias desse período. Outra, subjetiva, com os dez melhores filmes desse período, na escolha dos integrantes da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (Guto aqui até tem um amigo lá, que votou...).
Na mesa, se juntou aos três o Daniel Filho, o cara que dirigiu alguns dos grandes sucessos da Retomada, como "A Partilha", "A Dona da História", "Se Eu Fosse Você" e o recente "Primo Basílio". O mediador foi o produtor de cinema e sócio do Festival do Rio Marcos Didonet, e não, como tinha sido anunciado, o crítico de cinema Nelson Hoineff.
Cinema e literatura têm muitos pontos de contato, mas são formas de arte muito diferentes, foi o consenso do debate.
"A indústria cinematográfica transformou a arte de contar histórias no único propósito do cinema", disse Merten. "E não é. 'Limite', considerado por muitos o melhor filme brasileiro de todos os tempos, por exemplo, a rigor não tem uma história."
Merten lembrou ainda, como exemplo da sua argumentação, a tese de Alfred Hitchcock de que filmes baseados em clássicos nunca prestam, e que bom mesmo é adaptar livro ruim.
"Quando é uma adaptação de livro clássico, o espectador já chega no cinema cheio de idéias preconcebidas, acreditava Hitchcock. E, pensando assim, ele fez 'Psicose', um grande filme, a partir de um livro vagabundo."
Rodrigo acrescentou o quanto adianta pouco o chororô de fãs como os de "Harry Potter", que reclamam da mudança de detalhes mínimos dos livros nos filmes.
"O texto da J.K. Rowling nunca vai estar na tela. Não adianta esperar por isso."
Muito bem colocado. Livro é livro, filme é filme. Coisas diferentes, prazeres diferentes. E olha aí a Bienal terminando junto com o início do Festival de Cinema do Rio, como arremate perfeito disso.
Enviar para
um amigo
Escrever
comentário
Visualizar
comentários(
0 )
Fórum de Debates 22/09/2007 17:49
Livros, filmes e computadores - Parte 1
Nos dois maiores auditórios da Bienal, o Machado de Assis, no Pavilhão Azul, e o Clarice Lispector, no Pavilhão Verde, a discussão esta tarde foi sobre a relação da página escrita com duas telas inicialmente bem distintas e hoje a cada dia mais próximas: a do cinema e a do computador. As palestras Literatura em Rede: A Revolução da Internet e Cinema e Literatura foram das mais ricas deste sábado - e certamente deixaram a desejar, porque as relações entre a literatura e ambas estas telas são complexas demais para uma hora e meia de papo darem conta.
Da primeira, pesco das bocas dos quatro participantes (a blogueira e escritora Cecília Giannetti, o blogueiro, DJ e professor Dodô Azevedo, o blogueiro, engenheiro e colunista da revista Época Ricardo Neves e o blogueiro e jornalista consagrado Ricardo Noblat) alguns dos dados e opiniões apresentadas. Ficam aqui, soltas na página, para vocês pensarem na cadeira - ou na cama, ou.... onde quiserem.
O que estiver entre aspas é opinião, e fica creditada, o que estiver depois de travessão é dado e não importa quem disse.
"Seguramente a minha neta não vai conhecer jornal como nós o conhecemos hoje. Será algo mais portátil, mais eletrônico, talvez via celular, ou via computador" (essa é do Noblat, que será avô em janeiro)
- A telefonia fixa levou 74 anos para alcançar um milhão de usuários no Brasil. A internet levou quatro anos.
- O Brasil é sexto colocado mundial em número de internautas, com 39 milhões, atrás dos EUA, da China, do Japão, da Alemanha e da Índia.
- Em abril do ano passado, havia 36 milhões de blogs no ar. Hoje são 75 milhões. Estima-se que o número chegue a 100 milhões até o fim do ano.
- Uma pesquisa feita na Inglaterra entre meninos de 10 a 20 anos (ou seja, a geração internet-blog-fotolog) deu como profissão dos sonhos da molecada ESCRITOR.
"Há acadêmicos hoje que olham com interesse o miguxês. Foi com essas transformações da escrita que surgiu um Joyce, um Rosa." (miguxês, pra quem não sabe, é aquele jeitu di ixcrevê axim ki adolecenti gosta)
"Há, no MAM, uma instalação de 'Grande Sertão: Veredas' feita pela Bia Lessa que seria o que o Rosa usaria se houvesse a tecnologia adequada em sua época."
"'Finnegans Wake', do Joyce, e algumas coisas do Borges fazem mais sentido na internet do que em livro, mas não havia internet na época." (essas três últimas são do Dodô)
"Estamos saindo de uma sociedade industrial e indo para a sociedade digital global. Podemos também nos encaminhar para a barbárie digital, se não soubermos usar isso. Mas prefiro acreditar que estamos vivendo uma era da renascença digital. A humanidade vai digitalizar seu conhecimento. Tudo será passado para bits e bytes." (essa é do Neves)
Não serei eu a tentar extrair conclusões de um pedaço da História que ainda está sendo escrito, por isso ficam esses pensamentos soltos, para que vocês os organizem. Ou para que a História faça isso, daqui a 500 ou 1.000 anos.
Sobre o segundo debate, falo mais aí em cima.
Enviar para
um amigo
Escrever
comentário
Visualizar
comentários(
0 )
Esquina do Leitor 22/09/2007 14:23
Clichês, tô fora!
Mayra Dias Gomes jura que é essa a sua atitude, ou ao menos jurou aqui na Bienal, durante a mesa Da Tentação à Luxúria: O Prazer do Proibido (mesa não, bancos de praça, que é o estilo do espaço). Ela se queixou de ser sempre associada ao clichê sexo, drogas e rock'n'roll, atitude essa que ela disse (com razão) não ter mais nada de transgressora a essa altura. E procurou explicar de que forma a sua literatura não tem nada a ver com isso, apesar de ter tudo a ver com isso.
"As pessoas me vêem tatuada, já pensam em rock'n'roll. Rock'n'roll, já pensam em drogas. Drogas, vão para sexo promíscuo. E aqui estou eu numa mesa sobre luxúria. Na verdade, as personagens do meu livro estão em busca do amor. Eu tive uma adolescência conturbada, e procurei a minha identidade em drogas, sexo e rock'n'roll, relacionamentos instantâneos, amores líquidos, procurando nos dissolver no corpo do outro."
Em outras palavras, não se trata de glorificar sexo, drogas e rock'n'roll, mas, sim, de refletir uma adolescência conturbada, em que ela procurou afogar suas angústias em sexo, drogas e rock'n'roll. É mais ou menos isso, se entendi bem. Hoje está bem confuso aqui.
Enviar para
um amigo
Escrever
comentário
Visualizar
comentários(
1 )