Michael Connelly revela segredos dos livros policiais na XV Bienal do Livro Rio
Data: 10/09/2011Fonte: Fagga - GL exhibitions
Autor americano mescla tramas com temas contemporâneos em seus romances. No espaço Mulher e Ponto, descontração é a tônica das palestras.
Gênero popular na literatura, o romance policial foi o tema do debate de encerramento deste sábado, penúltimo dia da XV Bienal do Livro Rio. A palestra no Café Literário reuniu o brasileiro Luis Eduardo Motta e o americano Michael Connelly, consagrado autor do gênero, que já vendeu mais de 42 milhões de exemplares em 35 idiomas. A dupla discutiu os estilos de narrativa adotados e as diferenças que marcam o gênero no Brasil e nos Estados Unidos.
Connelly reafirmou a predileção por colocar reflexões sociais em seus livros, em sintonia com os temas do mundo contemporâneo. Porém, ressaltou que não se deve desviar do entretenimento, importante para o sucesso do gênero. “Essa reflexão tem de ser feita de maneira muito sutil, para que não se perca o foco do livro. Afinal de contas, a história precisa ser divertida”, explicou. O desafio de escrever histórias de ficção com verossimilhança mexe com os dois autores. Ex-jornalista, Connelly usa sua experiência da redação e mantém sempre o senso crítico apurado nos fatos para escrever da forma mais real possível. Já Luis Eduardo Matta procura não deixar de observar o mundo exterior.
“Sou um observador dos fatos do dia-a-dia, da vida alheia. Eu não dirijo, só uso transporte público, e isso ajuda muito, pois estou sempre em contato com muitas pessoas e de estilos diferentes. Outro método eficiente é tentar ler notícias de jornal impactantes e imaginar que elas poderiam ter acontecido de outra forma. Isso ativa minha imaginação”, revelou Matta. Já o processo de criação literária pontuou a conversa entre a jornalista Elvira Vigna, o autor e roteirista Max Malmann e o professor e romancista Menalton Braff na sessão “As múltiplas faces da narrativa”. Em pauta, a inspiração para personagens e cenários de seus livros e influências literárias. Menalton comparou suas criações a retalhos em que uma rua de uma cidade alia-se à praça de um outro local. “Adoro reinventar as coisas e não datá-las ou identificá-las. Procuro criar ambientes e tempos desconhecidos, já que não levo jeito para criar narrativas onde pessoas morrem”, disse o gaúcho Menalton, logo respondido por Elvira. “Você é, com certeza, mais criativo do que nós. Eu adoro matar. Mato muito nos meus livros e nunca sou julgada culpada por isso. Viva a narrativa”, rebateu.
Mais cedo, os educadores e escritores Rubem Alves e Bartolomeu Campos de Queirós conversaram sobre poesia, filosofia e educação na sessão “Literatura, linguagem e sabedoria”, no Café Literário. A dupla entremeou o bate-papo com citações a Fernando Pessoa, Cecília Meireles, Michel Focault e Murilo Mendes. Para os dois, a dúvida deve ser a mola-mestra da literatura e da educação. “Para escrever é preciso que não se saiba absolutamente nada. Se eu tivesse certeza, faria um livro didático. É a dúvida que move a literatura”, afirmou Queirós. “É igual ao ensino: só pode dar aula quem tem dúvidas. O professor que sabe de tudo só abesta as pessoas”. No espaço Mulher e Ponto, a descontração foi a tônica da noite de sábado. O encontro entre a escritora Martha Medeiros e a atriz Cissa Guimarães animou o público. Criadora e criatura, já que Martha escreveu o livro de crônicas Doidas e Santas (L&PM), adaptado para teatro e encenado até hoje por Cissa, as duas mostraram que possuem muito em comum. “Toda vez que leio os textos da Martha parece que sou eu quem está falando. Não saberia dizer melhor do que ela”, elogiou Cissa. As duas arrancaram risadas da plateia ao falarem sobre as mudanças que os atores fazem no texto e de que forma isso afeta a obra. “Quando escrevo, sou proprietária privada do livro. Depois que o libero para uma adaptação, sei que será uma criação em equipe. Não mudaria nada na peça”, disse Martha. Em tom de brincadeira, Cissa disse: “Já trabalhei com autores muito chatos, que reclamavam das mudanças que fazíamos no texto, e eu dizia ‘deixa reclamar, na hora a gente entra e faz tudo diferente’…”.
Na segunda sessão do dia do espaço Mulher e Ponto, o bate-papo entre Ticiana Azevedo, uma das autoras do livro Cuidado! Seu Príncipe Pode Ser uma Cinderela (BestSeller), e a atriz Maria Paula, que lançou no evento seu primeiro livro, Liberdade Crônica (Faces), girou em torno das conquistas das mulheres e da homossexualidade. Formada em psicologia, Maria Paula, que trabalhou 17 anos com humor, disse que o livro de estreia versa sobre o consumismo, relacionamentos e a escravidão da beleza.
Já Ticiana escreveu sobre uma história real em que a personagem principal descobre, após sete anos de casamento, que seu marido é gay. A autora contou que os homens sabem se são gays até os 24 anos. Maria Paula aproveitou o gancho para dizer que as mulheres conquistaram até mesmo o direito de ser bissexuais sem que isso seja um problema. “É uma virada histórica. Podemos beijar mulheres. Podemos tudo e eles não podem nada. Há algum tempo, na hora da paquera, o cara é que dava o primeiro passo. Hoje em dia, somos predadoras, os homens viraram caça”, divertiu-se. No espaço Livro em Cena, dedicado à releitura de grandes clássicos da literatura nacional, os atores Camila Morgado e Ângelo Antônio relembraram as obras de Lúcio Cardoso e Padre Antônio Vieira, a convite do curador do espaço, o diretor teatral Gabriel Villela. Camila realizou leitura de um dos capítulos de “Crônica da casa assassinada”, obra-prima do autor. “Quando Gabriel me convidou, nem pensei duas vezes. Depois que soube qual era o livro que ia ler, fiquei ainda mais feliz, porque o texto é maravilhoso”, disse a atriz. “Esse espaço é muito estimulante. A gente perde o hábito de ler em voz alta, de ouvir o livro sendo dito, mas isso é importante. Aqui, eu me coloco como leitora”, afirmou.
Já Ângelo leu o “Sermão da Quarta-feira de Cinzas” e se apresentou ao público sentado no chão do palco, descalço e com as pernas dobradas em posição de lótus. “O texto de Antônio Vieira exigiria uma certa pompa. Mas o Ângelo possui esse lado espiritual e livre, então, decidimos fazer assim. E a leitura mesmo já é um ritual muito bacana”, disse Villela. Feliz com o convite, Ângelo ressaltou a importância do texto de Padre Antônio Vieira. “É tão poderoso e atual. Precisamos continuar falando sobre ele. Eu não conhecia. Foi mais um presente do Gabriel. Agora comecei a ler outros”, afirmou.
A 15ª Bienal do Livro Rio, uma iniciativa do SNEL (Sindicato Nacional dos Editores de Livros) em parceria com a Fagga | GL exhibitions, acontece no Riocentro até 11 de setembro.
Email:
bienal@fagga.com.br
Telefone:
Rio de Janeiro - 55 21 3035-3100