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Corrupção é tema de mesa no último dia da Bienal

A primeira mesa do Café Literário no último dia da XIX Bienal do Livro Rio abordou um dos temas mais debatidos (e polêmicos) dos últimos anos: a corrupção institucional e na política.  No debate, especialistas como a jornalista Raquel Landim, autora do livro “Why Not”, sobre as ligações da JBS com o governo Temer; o também jornalista Silvio Barsetti, autor de “A farra dos guardanapos”, e Michael Mohallem, professor e coordenador do Centro de Justiça e Sociedade da FGV – Direito Rio e autor de “Novas medidas contra a corrupção”, com mediação do jornalista Guilherme Freitas.

Os convidados falaram sobre o processo e as dificuldades de apuração de seus livros, como no caso de Raquel, ao investigar Joesley e Wesley Batista: “Eu já acompanhava o crescimento acelerado da JBS, todo aquele dinheiro público entrando, aquilo chamava a atenção. Quando veio a delação premiada e a divulgação da gravação de Joesley conversando com Temer resolvi escrever o livro. Era uma história em que todo o mundo gravava todo o mundo, mas eu não podia gravar ninguém. Foi jornalismo à moda antiga, entrevistando cada pessoa e dizendo ‘olha, para falar mal de você tem o mundo todo, para falar bem, é você’”.

Barsetti, por sua vez, soube da festa da cúpula do governo do Rio de Janeiro à época, mas não viu repercussão. “A imprensa ignorou. No máximo saiu notinha falando de um mágico da festa brincando com o anel de R$ 800 mil da primeira dama”, lembrou. Quando a foto dos políticos em uma festa de arromba em uma mansão na Avenida Champs-Élysées, em Paris vazou, o jornalista decidiu dedicar um livro sobre o caso, mas também teve dificuldades na apuração: “O próprio Cabral estava preso, então não consegui contato direto. Tentei pelo filho dele, Marcantônio, mas não deu a mínima. Mas ouvi muita gente. E teve gente que pediu pelo amor de Deus para não entrar no livro. O critério final para afirmar que alguém estava na festa foi a pessoa aparecer nas fotos”.

Único a não narrar uma história, o livro que Mohallem e Bruno Brandão coordenaram foi motivado pela divulgação de uma pesquisa do instituto Datafolha que revelava pela primeira vez a corrupção como a principal preocupação dos brasileiros em 2015, à frente de preocupações tradicionais como violência, desemprego e saúde, entre outras. “Reunimos os 200 principais pensadores sobre corrupção: professores, advogados, juízes, servidores públicos, entre outros. A proposta era trazer para o debate público uma ampliação do conceito de corrupção. O fato de um juiz ter se tornado herói mostra como ainda entendemos corrupção como algo que (administrar) só diz respeito ao Judiciário”, analisou.

O livro reúne 70 medidas de várias naturezas para reduzir a corrupção, que vão do jornalismo investigativo à transparência, colocadas em formato de sugestão para projetos de lei. E parece que teve eco. “Dessas 70 medidas, várias já estão em tramitação no Congresso”, disse Mohallem.

Lava-Jato na berlinda da corrupção

Raquel Landim lembrou a importância de atentar para instrumentos legais tidos como confiáveis: “A delação premiada é um instituto muito importante, mas o processo, para a gente que é jornalista era difícil entender. E uma parte está vindo à tona com as apurações do Intercept Brasil, em que vemos que os procuradores da Lava-Jato se sentiam semideuses. Ao mesmo tempo não dá para dizer que a Lava-Jato só teve falhas: Eduardo Cunha está preso, por exemplo”.

Mohallem fez coro: “A Lava-Jato teve acertos e equívocos, como o fato de que os protagonistas, procuradores e juiz, se politizaram. São práticas proibidas e houve desvio. Mas o Judiciário tem instrumentos para corrigir esses erros. Não se pode pegar a bacia em que o bebê está tomando e jogar a água fora junto com o bebê. Só acho importante pensar qual combate à corrupção nós queremos. Como levar isso adiante? Um bom caminho é a prevenção. Por exemplo, por meio de transparência. Bolsonaro restringiu a informação sobre as visitas ao Palácio do Planalto. Essa informação é essencial para os jornalistas acompanharem e especularem sobre o governo”, destacou.

O papel da imprensa

Perguntados pela plateia, os jornalistas se posicionaram sobre a importância da busca pela imparcialidade e de iniciativa da imprensa em relação à investigações oficiais. Raquel Landim lembrou o momento delicado do setor: “É preciso lembrar que os jornais estão em crise financeira, com menos recursos. Mas isso não é desculpa: falta empenho da imprensa em não ficar tanto a reboque do Judiciário, sob pena de divulgar só o que interessa para um lado.” No caso da farra de Cabral, Silvio Barsetti criticou diretamente a independência da categoria: “A imprensa falhou na cobertura sobre Cabral. Mas é uma falha direcionada: o repórter tem indícios e denúncias, mas não pode avançar, porque o governador é o ‘namoradinho do Rio’”, disse, taxativo.

Raquel condenou também os “endeusamentos que a imprensa faz de determinadas figuras, como Cabral e Moro. Por mais bem-intencionado que o sujeito pareça, não se pode fazer isso. Porque o jornalismo cobra a conta”, alertou.

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08/09/2019

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