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“É assim que as democracias morrem”, diz Steven Levitsky sobre censura à Bienal

Uma das mesas mais aguardadas desta edição, “Sobre autoritarismos e democracias” reuniu o cientista político americano Steven Levisky, professor de Harvard e um dos autores do best-seller “Como as democracias morrem”, e a historiadora e antropóloga Lilia Shwarcz, que acaba de lançar “Sobre o autoritarismo brasileiro”, no sábado, dia 7.

Lilia abriu a conversa dizendo: “É um prazer estar aqui depois de um dia como ontem (sexta), quando tivemos um exemplo de como os governantes podem ser autoritários”, referindo-se ao episódio em que a Prefeitura do Rio de Janeiro ameaçou confiscar HQs que continham imagem de dois heróis do mesmos sexo se beijando.

O convidado americano seguiu o mesmo tom. “Primeiro, é preciso falar em termos fortes sobre a tentativa de censura de Crivella. Já participei de eventos literários em todo o mundo e nunca vi nada parecido com o que aconteceu ontem aqui. É assim que as democracias morrem. Gostaria de aplaudir vocês que lutaram contra isso”, elogiou.

O jornalista Marcelo Lins, que mediou a conversa, perguntou sobre como a democracia que se dizia a mais sólida do mundo chegou à eleição de Donald Trump. Levitsky fez um breve resumo da crise democrática americana: “Nos Estados Unidos, esse senso de democracia que era exportado, em parte era real, em parte ficção. Todo partido precisa aceitar os outros como legítimos, por exemplo. Mas a partir dos anos 1960, começamos a ter uma democracia muito múltipla, com imigrantes de todo o globo. Antes, brancos cristãos tinham a presidência, a religião, as empresas, e esses dias acabaram. E perder a maioria étnica é muito ameaçador, os republicanos acham que estão tirando tudo deles. Isso vem bem antes do Trump, que é só um sintoma, não a causa”, explicou.

É também a questão racial, segundo Lilia, o calcanhar de Aquiles da democracia brasileira: “Enquanto não encararmos esse problema, não seremos uma república. Ao todo, 10 milhões de africanos entraram nas Américas, e 4,8 milhões deles vieram pro Brasil. O Brasil naturalizou isso e foi o último das Américas a abolir a escravidão – com uma lei muito conservadora, que não previa como essa população ia se integrar à sociedade do país”, avaliou.

“Hoje, pelo Censo do IBGE, nossa população tem 55% de negros, mas essa parcela da população não está representada. Nos últimos 30 anos procuramos incluir essa população, mas falta muito. Trabalho na USP, a maior universidade do país, onde a política de cotas só passou três anos atrás”, destacou Lilia.

No livro, o mais vendido pela Amazon no Brasil, Levitsky lembra que não é só de golpes militares que morrem as democracias:

“Nos últimos 30 anos a democracia morreu na mão de presidentes eleitos e em nome de faxinas contra a corrupção e com o aval do Judiciário”, ressaltou. “Quando o presidente eleito está no primeiro ou segundo ano de mandato e captura o Judiciário com o propósito de usar a Lei contra o povo – e certamente Bolsonaro pressionou o o Judiciário – essa é a primeira maneira de atacar a democracia”.

Levitsky também ressaltou que o argumento da legalidade pode ser usada como pretexto para atrocidades morais. “Há maneiras muito comuns para a democracia morrer. Uma delas são os líderes que usam as leis para derrubar a democracia. Isso geralmente acontece muito devagar para o cidadão comum perceber que está perdendo a democracia”, alertou.

Nas falas finais, esperança

Apesar do tom reinante de indignação e alerta, os dois cientistas sociais encerraram a mesa com palavras de incentivo e esperança.

Para Lilia, o autoritarismo “não é parte do DNA dos brasileiros: é uma construção histórica. E crise etimologicamente quer dizer ‘decisão’. Toda decisão passa pelo nosso arbítrio. A sociedade civil precisa se manifestar, são 30 anos de conquistas, os negros estão nas escolas, as mulheres não vão voltar para o tanque, a população LGBTI vai continuar andando nas ruas de mãos dadas e dando beijos” – opinou, sendo ovacionada em seguida.

“Penso que lutar pela democracia e pela diversidade é nossa grande chance é nosso grande segredo: um país mais múltiplo com mais inclusão e menos exclusão”, afirmou Lilia.

Perguntado sobre o que diria para reforçar a esperança dos brasileiros na democracia, o americano respondeu: “O que se vê nos noticiários é a recessão de democracias do mundo todo. É uma ameaça, mas no mundo todo os cidadãos estão lutando. Não é difícil ver exemplos de democracias morrendo, mas não é difícil ver sociedades lutando. O que aconteceu aqui na Bienal me dá muita esperança.”

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08/09/2019

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