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Especialistas discutem Machado de Assis e a literatura negra

Uma mesa de peso para discutir a literatura negra, na Arena #SEMFILTRO. A consagrada Conceição Evaristo, o professor doutor Eduardo de Assis Duarte, coordenador do grupo de pesquisa Afrodescendências na Literatura Brasileira e do portal Literafro, e o recém-revelado autor José de Almeida Jr., finalista do Jabuti 2018 com o romance “Última hora”, se reuniram para discutir o assunto com os visitantes da Bienal.

No ano que marca o 180º aniversário de nascimento do Bruxo do Cosme Velho, os convidados discutiram sua vida e obra, questionando antigas crenças em relação ao autor, tanto em relação à sua identidade racial – cada vez mais reivindicada pelo movimento negro na campanha “Machado de Assis Real” da Universidade Zumbi dos Palmares (SP) -, quanto em relação ao mito de sua passividade em relação à elite branca da época.

“A literatura negra fez o caminho inverso”

Em uma aula sobre a história da literatura negra, o pesquisador Eduardo de Assis Duarte ressaltou que o estilo foi na contramão geográfica da maioria das escolas literárias: “ A literatura negra começa no Caribe por volta de 1920, vai para os Estados Unidos em 1922, prospera fortemente a partir de Nova York, dialogando com o jazz nos anos 30-40, volta ao Caribe e desembarca na França no fim dos anos 40 com o movimento da Negritude francesa. Então foi o primeiro movimento que começa do lado de cá, das Américas, e vai para a Europa.”

De acordo com o especialista, a próxima parada seria o Brasil: “Logo o movimento chega também aqui com Abdias Nascimento, que coloca os negros no teatro”.

Um negro escrevendo para brancos

Duarte lembrou que o autor vivia em ambientes brancos, e que esse foi seu público, mas que é importante considerar as circunstâncias: “Machado era negro, mas escrevia para o público branco. O primeiro romance saiu em em 1872. Em 1871, Dom Pedro II fez o primeiro Censo do Brasil. Com a tecnologia da época o resultado saiu só em 1876: 84% dos brasileiros eram analfabetos, somente 15% eram brancos que sabiam ler e compravam livros e jornais. Eram os leitores de Machado”.

Sobre os críticos que até hoje cobram maior engajamento do fundador da Academia Brasileira de Letras nas causas negras, o acadêmico disse “Já palestrei para o Movimento Negro e me questionaram: ‘Quem é o herói negro de Machado?’. Eu respondi com outra pergunta: ‘quem é o herói branco? Brás Cubas? Um canalha! Bentinho? Aquele homenzinho fraco que acha que foi traído por aquele mulherão?’. Machado conseguiu fazer a crítica da elite branca sem botar um negro como herói. Ele mata Brás Cubas e não enterra, todo domingo ele volta para botar os podres da sociedade branca para fora!”, concluiu, em tom empolgado.

Literatura é campo mais difícil de reconhecimento para negros

Aguardadíssima, Conceição Evaristo iniciou sua fala abordando o incômodo que os negros letrados causavam aos brancos: “Vou usar o termo mulato, mas para vocês entenderem como era na época. O sujeito mulato sempre causava incômodo aos brancos, pois tinha mais possibilidade de ascensão. Um dos estereótipos era esse: o mulato articulado queria imitar o branco – principalmente na linguagem, sendo ‘pernóstico’. A facilidade de lidar com a língua incomodava”, explicou.

Para a vencedora do Prêmio Jabuti de 2015, a disputa pela identidade racial de Machado não diz respeito somente a ele: “Não se trata de reivindicar só a negritude do Machado. Trazer esses grandes nomes para nossa identidade é mostrar que o negro tem uma função intelectual, não só o branco”, analisou.

A mineira radicada no Rio nos anos 1970 ressaltou a dificuldade de o negro se integrar intelectualmente: “Talvez a literatura seja o campo mais difícil para o reconhecimento do negro. É permitida ao negro a ‘cidadania lúdica’: arte, cultura, culinária. Mesmo na cultura, há pouquíssimas bailarinas negras, só me lembro do regente Paulo Moura agora, e o samba mé separado do restante da MPB como algo à parte. Não quero dizer que a festa, a cultura não é importante. É importantíssima. Se não há festa não há resistência. E os africanos escravizados sabiam muito bem disso. Mas por que essa dificuldade em pensar que há uma literatura negra? Por que essa dificuldade de achar que a ironia de Machado poderia ser fundamentada nas experiências e subjetividade de Machado como sujeito negro, e não somente nos franceses?”

Omisso, não

Conceição e Duarte encerraram a conversa desconstruindo o mito do Machado passivo na causa negra. Para a autora, os negros precisaram “comer pelas beiradas”.

“Michel de Certau fazia uma distinção de estratégia e tática. Estratégia seria quando os dois lados em enfretamento estão a par em termo de organização. A tática é a arma que o fraco tem. Você faz no momento do jogo, é junto ao inimigo que você vê como se portar. É no meio dos ricos, dos brancos, que ele vai chegando, comendo pelas”, descreveu.

Ao que Eduardo arrematou: “Ele foi um excelente jornalista por 50 anos, mas entrou pelos fundos, como gráfico. No ano seguinte já estava na redação corrigindo doutores. E daí, ganha sua coluna. Mas ele sempre usou esses espaços para a campanha abolicionista, assim como seus romances ironizavam a elite branca. O brasileiro não conhece a própria história. Acusar Machado de omisso é absurdo.”

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08/09/2019

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